Desperdício de Poder: Por EduFarnezi

Sempre que um novo console é anunciado, universalmente a primeira necessidade de informação do gamer são as especificações do aparelho. Impulso lógico, afinal de contas temos de nos certificar de que o encerramento de um ciclo de geração seja justificável e a única justificativa plausível é que a vindoura geração possua equipamentos bem mais poderosos a disposição.

É consequencial que queiramos algo substancialmente melhor do que já o possuímos, pois adentrar em uma nova geração traz consigo todo um novo ciclo de gastos e convenhamos que o valor gasto em um novo console não é exatamente baixo (em especial para nós, brasileiros).

Uma vez que as especificações do novo console são oficialmente reveladas, todo mundo corre para tentar compreender o quão mais poderoso o novo aparelho realmente o é, quando comparado com o que já possuímos no mercado.

Usualmente para tal serviço temos os “manjões”, que mal sabem escrever o nome do console mas que já possuem opiniões firmes acerca dessa questão, e temos os sites especializados nesse tipo de análise. Dito isso, não entrarei nessa discussão aqui.

Após tais especulações acerca do “real poder” de um console que está por vir, temos normalmente acesso os tech demos de games que, em teoria, estão sendo desenvolvidos. Tais demos servem para comprovação de maior poder da nova máquina.

Após esse extremamente resumido raio x acima descrito, eu te pergunto: Qual é sua principal preocupação acerca da amostra de poder de um novo console?

Estendo tal pergunta: O que é que você instintivamente pensa quando sabe que um console mais poderoso está por vir?

Eu asseguro que 90% das pessoas que leram as duas perguntas acima tiveram respostas baseadas em qualidade visual do jogo. Garanto que, instintivamente, quando se fala de um novo console, a maioria esmagadora pensa imediatamente que o mundo do entretenimento eletrônico vai ganhar um equipamento que obrigatoriamente proporcionará jogos muito mais belos visualmente do que até então era possível.

Em resumo, a grande massa gamer faz instantaneamente a seguinte relação: MAIS PODER = MAIS BONITO. E o faz sem pensar duas vezes acerca de tal raciocínio.

Se você que lê esse texto nesse momento faz essa relação, e proporcionalmente é bem provável que a faça, quero dizer que eu te entendo totalmente, mas que não concordo totalmente com isso.

Antes de me chamar de idiota e de me acusar não saber do que estou falando, eu te convido para analisar o meu lado da história, que culmina na seguinte relação: MAIS PODER = JOGOS MELHORES.

Como ponto de referência para expor minhas considerações, vou me utilizar da atual geração de consoles, voltando à anterior para alguma explicação de caso, no máximo. Acho que fazendo assim fica mais fácil para que todo mundo que esteja lendo compreenda os argumentos, comparações e conclusões.

Nessa geração de consoles tivemos um verdadeiro cabo de guerra no que cerne a resolução, beleza visual e performance nos games. A promessa de Sony e Microsoft era proporcionar uma experiência de jogo FullHD e a fluentes 60 frames por segundo. E antes que algum filhote de MilGrau apareça por aqui dizendo que a Microsoft nunca prometeu isso, eu te aconselho ou a voltar para sua toca MilGrau, ou a abrir essa sua cabecinha e abdicar desses grilhões que hoje te prendem. No caso de escolher a segunda opção apresentada, seja bem-vindo.

Como o andar da geração nos mostrou, alcançar a resolução de 1080p aliada a cravados 60fps se mostrou ser um grande problema. Culpar falta de poder dos equipamentos é sim uma justificativa plausível, mas acredito que seja a justificativa comodista.

Como comentei mais ao começo do texto, sempre que novos consoles são apresentados o mundo gamer imediatamente exige jogos cada vez mais impressionantes visualmente e isso consome recursos do novo hardware. Alie a obrigatoriedade de criar jogos com gráficos cada vez mais incríveis que o anterior à necessidade de se alcançar a mais alta resolução possível e manter uma performance primorosa e temos aí nosso gargalo.

Como existe a hipérbole de que os jogos devem ser virtuoses visuais, as desenvolvedoras preferem criar concessões no que cerne a resolução ou a performance do jogo do que nos gráficos.

Consigo claramente vislumbrar um jogador compreendendo o fato de um game não alcançar os 1080p, ou mesmo rodar a 30fps em detrimento dos 60fps. Consigo também vislumbrar um gamer compreendendo eventuais quedas de framerate em um jogo, se utilizando da justificativa de que “tem muita coisa acontecendo na tela, então o console não aguenta”.

Aliás, não só consigo vislumbrar, como cansei de ver isso em tudo quanto é fórum de games dos quais participo.

Sabe qual situação não consigo encontrar muita gente defendendo? Que uma produtora não alcance primor visual em prol de uma experiência maximizada no gameplay. Pelo contrário, quando a concessão é no setor visual e a justificativa para isso é performance, o caboclo desce a lenha no jogo.

Pergunto-lhes: desde quando um jogo mais belo é um jogo melhor? O que define verdadeiramente um jogo bom, ou melhor, o que separa uma boa experiência de jogo de uma não tão boa? Eu te asseguro que os gráficos não estão nas respostas dessas perguntas.

Estamos tão acostumados em fazer a relação de que mais poder tem de significar gráficos mais realistas que nos esquecemos de parar para pensar se realmente essa é a melhor maneira de se usar o poder extra que um console novo possui.

Imagine você se as desenvolvedoras se utilizassem prioritariamente do aumento de poder de novos consoles para a criação de melhores experiências de jogo. Criar jogos com mundos maiores, mais interativos, com maiores possibilidades de gameplay, com melhor performance, enfim, se focar no que faz um game ser bom, em detrimento de atingir um visual cada vez mais imponente.

Aliás, não precisa imaginar. Temos exemplos claros de jogos que se aproveitam do poder extra de novos hardwares se focando em outros elementos que não a maximização visual: Remasters.

Vou me utilizar de um exemplo em específico aqui, mas a situação é bem abrangente.

Quando, por motivos que só a Capcom explica, decidiram mudar todo o core da série Devil May Cry e a entregaram nas mãos da Ninja Theory, surgiu DmC: Devil May Cry.

Lançado para Xbox 360 e Playstation 3, DmC desagradou a grande parcela dos fãs da franquia por diversos motivos, mesmo não sendo um game ruim em sua essência. Tal rejeição teve como foco a mudança drástica do tom narrativo, do foco do gameplay e em especial por conta da representação deturpada de personagens clássicos e amados dos gamers como Dante, Vergil e Mundus.

Apesar de tudo o acima apresentado, se há algo que não se pode negar é que visualmente DmC é muito bom, tanto tecnicamente, quanto em design de cenários. Cada uma das fases possui uma identidade visual única e psicodélica, bem como são entidades vivas dentro do jogo.

O que infelizmente ninguém se recorda, ou se importa, é que dado esse psicodelismo e primor visual que a Ninja Theory almejava, houve a decisão da equipe de desenvolvimento de não fazer o jogo rodar a 60fps, mas sim a 30fps.

Um jogo do gênero Hack´n Slash, que demanda necessariamente de ação e reação milimetricamente calculados do jogador, não rodaria em máxima performance e fluidez porque boa parte dos recursos dos consoles foi direcionado para a parte visual do game.

Visual em detrimento do gameplay e performance.

Eu entendo que nesse caso em específico esse meu argumento pode sofrer um válido contra-argumento: a psicodélica dos cenários não servia somente ao visual, mas também ao gameplay. Eu concordo com isso, mas usei DmC como exemplo, de maneira consciente, com um propósito que valide o que me foi exposto até aqui. Prossigamos.

No ano de 2015 foi lançado DmC: Devil May Cry: Definitive Edition, para Playstation 4 e Xbox One. Nesse remaster do game original, além das óbvias melhorias visuais, houve a inclusão de novos modos de jogo, novas dificuldades e melhorias mecânicas no gameplay.

Ah sim, e o jogo agora rodava a lisos 60 fucking fps cravados!

O poder do hardware de Playstation 4 e Xbox One permitiu que o game rodasse com a performance necessária e que ainda fosse mais belo que o original. Dito isso, mesmo sendo um jogo da geração passada, eu lhe desafio a jogar DmC: Definitive Edition e ter a cara de pau de falar para mim que o jogo não está belíssimo.

Exemplos como esse não faltam, até mesmo de consoles mais antigos. Games como Okami e Shadow of Colossus, por exemplo, em suas versões remaster possuem performance verdadeiramente satisfatórias se valendo de um hardware melhor.

O ponto aqui é: culturalmente exigimos e só nos importamos que um novo console faça games mais belos, mas não paramos para pensar que há melhores usos para o poder extra desse novo hardware, que renderiam jogos muito melhores e que ainda seriam substancialmente belos.

Antes que me acusem de ter me esquecido que quando comparados aos consoles os PCs não possuem esse tipo de problema, gostaria de deixar claro que tem sim. Um PC que possua as mesmas especificações técnicas de um console não faz sequer o que o referido console o faz.

Para que um PC seja substancialmente mais poderoso que um console de atual geração, o valor gasto para a compra das peças é astronômico quando comparado ao valor cobrado pelo videogame. Se o console fosse montado com as mesmas especificações de um PC de ponta de mesmo período, o valor seria muito maior do que a média praticada para o produto e isso não seria sustentável.

Então “senhores Master Racer”, o recado dado ao longo do texto para os “caixistas MilGrau” também é válido.

Espero que o ponto primordial da blogada de hoje tenha ficado claro e fica o convite para a deliberação desse tema na secção de comentários. Até a próxima pessoal!

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Gamer por paixão, cinéfilo por vocação, leitor de mangás e HQs por criação e nerd pela somatória dos fatores. Acredita que os únicos possíveis cenários de apocalipse são Zumbis e Skynet e não sai para noitadas por medo do que Segata Sanshiro pode fazer se encontrá-lo.

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2 comentários em “Desperdício de Poder: Por EduFarnezi
  1. Essa relação beleza vs funcionalidade lembra um pouco a situação em que o prefeito de uma cidade possui um valor X para gastar em obras, mas ao invés de refazer o sistema de esgoto e saneamento prefere arborizar praças e reformar calçadas. Claro, todas importantes mas a infra estrutura mais urgente ficou de fora porque demora e “ninguém vê”, já que visualmente são obras que não ficam expostas como panfletes eleitorais, embora sejam fundamentais. Esse comportamento do prefeito em parte é culpa do eleitor também que não valoriza aquilo que não é alardeado da mesma forma que um sabão em pó que vende pouco por não ter marketing.

    Será que essa escolha pela beleza também não está limitando os PC´s também? Eu digo isso porque os AAA´s possuem um elo que liga tanto os consoles quantos os PC´s, é o tal do multiplataforma e mesmo que este último execute o jogo no seu máximo, esse “máximo” já vem de fábrica viciado.

    Por exemplo. Seu texto fala no desperdício do poder de um sistema que valoriza mais a beleza do que outros aspectos que um jogo poderia ter. Isto é, poderíamos ter jogos mais ricos e que continuariam sendo belos, não tão super belos mas ainda assim… belos. Mas um jogo completo nada mais é que um software, igual ao Excel ou o Word. Eles só fazem aquilo que são programados para fazer.

    A limitação a que me refiro é a seguinte. Se um desenvolvedor está focado no visual ele não vai se preocupar em desenvolver outras características de gameplay, sonoras, de level design etc ao jogo. Ele vai seguir a cartilha. O que é mais vendável. E depois de pronto. Teremos um jogo simples. Lindo, que vai rodar a 30 ou 60 fps mas simples do que poderia ter sido se seu projeto inicial não tivesse nenhum tipo de limitador.

    A diferença básica entre um console e um PC é a intensidade e não a variedade. Se um AAA sai para ambos, isto significa que ambos terão que apresentar a mesma coisa, mesmo que no PC seja mais fluido e mais bonito, ainda assim será o mesmo.

    Então o argumento de desperdício que seu texto fala se aplica a tudo, e nem mesmo os indies podem fazer algo a respeito já que eles não possuem as rédeas do mainstream. Talvez a sede pelo grafismo esteja “censurando” o surgimento de jogos mais criativos. E uma andorinha só não faz verão. Logo. Não estou levando em conta a presença da Nintendo que de certa forma não está sujeita a esta argumentação de desperdício de poder que o texto fala já que ninguém pode desperdiçar o que não tem. Ou não quer ter em seus consoles.

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  2. Concordo contigo no que tange à limitações dos multiplataformas nos PCs.
    A versão base de um multiplataforma sempre tem como limitação de hardware os consoles, o que impede por certo de esses jogos poderem alcançar os limites mensuráveis que um PC de ponta proporcionaria.
    Infelizmente não é comercialmente viável lançar um jogo muito “parrudo” exclusivamente para PCs, porque daí você não só excluiria as vendas desse jogo para consoles, mas também para usuários de PCs com máquinas menos poderosas.

    Quanto a questão da Nintendo, realmente a ignorei completamente ao longo do texto.
    Ela é um caso todo a parte e como bem você o disse em seu texto: “uma andorinha só não faz verão”.

    Obrigado pela visita, grande Ulisses!

    Curtido por 1 pessoa

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Novo fundo de tela, para deixar os inimigos temerosos.
Razing Storm, rapá! Sensei @leandrofoloni , chegou a sagrada hora.
Honre-me com vossa sabedoria.
Doutrine-me em Tekken 7! Hora de platinar de novo.
Meu usuário Br merece "saparada"! Já que inventei de fazer um novo PSNID, agora Br e para sempre, perdi meus troféus de meu user USA do período de PS3.
Entretanto, certas Platinas são xodós. São do coração.
Assim sendo, eu vou, no atual user, refazer algumas delas.
É claro que vou começar com a Platina mais xodó dentre as Xodós.
Tem quem chamaria isso de "duplo-masoquismo", mas eu chamo de diversão.
Simbora recuperar minha honraria em Devil May Cry 3! Quando você termina de customizar seu Guardião e pensa: "meu Zeus, fiz um Power Ranger"! Não importa quem seja seu ídolo, ele simplesmente não é nada perante esse mito.
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