O ápice de uma franquia: Por EduFarnezi

Desde “patotinho” jogo videogame. Na verdade, desde que me entendo por gente tenho vívidas recordações de ser um gamer. Por isso considero que jogo a vida inteira, pois mesmo que isso não seja um fato concreto, é assim que me sinto.

No meu período de formação enquanto entidade gamer, um jogo em específico me fez compreender que jogos podem sair do comum e proporcionar experiências diferenciadas, mesmo que em uma idade tão tenra (tanto minha quanto da indústria). O jogo em questão foi o primeiro Metal Gear.

Felizmente pude jogar Metal Gear, bem como sua sequência, no MSX. E sim, tive acesso a um MSX extremamente cedo, o que me permitiu jogar ambos os games na plataforma.

Ao jogar o primeiro Metal Gear, mesmo que sem poder realmente aproveitar toda a experiência que o jogo visava proporcionar (mal sabia minha língua nativa, que dirá uma outra), o simples fato de ter de ser furtivo me foi suficientemente “mind blowing”.

Considero esse o game que despertou em mim um jogador melhor, mais exigente enquanto o que se pode esperar de um jogo. Se hoje sou um gamer que ama de paixão o mundo do entretenimento eletrônico, que anseia sempre estar bem informado sobre esse universo, bem como gostar de jogos “fora da caixinha”, agradeço inicialmente a Metal Gear por isso.

Desde então, a série de Kojima conseguiu um lugar especial em meu coração, mesmo que naquele dado momento quase ninguém a conhecesse. Já no Playstation, fui um dos poucos do meu grupo de amigos que realmente estava empolgado pelo anuncio de Metal Gear Solid assim que o nome do mesmo surgiu na saudosa Super Game Power.

Se o primeiro game da franquia já trazia o clássico stealth enquanto core do gameplay, mas ainda era extremamente simplista no que cerne a mecânicas de jogo e história, a sequência refinou bastante as mecânicas de jogo, o visual e trouxe maior enfoque e riqueza ao enredo.

Metal Gear 2: Solid Snake na verdade traz plot twits que demandam conhecimento dos acontecimentos da história do primeiro game. Ou seja, apesar de simplista, o enredo de Metal Gear é absolutamente canônico.

Metal Gear e Metal Gear 2: Solid Snake consolidaram o gênero stealth e são o alicerce de todo o restante dos games principais da franquia.

Não vou me meter a entrar em detalhes do enredo dos jogos da franquia, pois isso consumiria muito mais palavras do que sonharia em escrever nesse texto. O negócio é muito grande e complexo, fora que não é o foco aqui.

Metal Gear Solid chegou e abalou as estruturas de tudo. O mundo do entretenimento eletrônico já estava em um outro patamar de popularidade e graças a isso a série teve a chance necessária de ser amplamente conhecida e de possuir o reconhecimento merecido.

Gameplay stealth inventivo e diferente de tudo o que se estava acostumado, um enredo robusto e com apresentação cinematográfica, dublagem de nível profissional, trilha sonora afiada e visuais acima da média, Metal Gear Solid era (ainda o é na verdade) um pacote completo.

Desde então, considerando os games principais (canônicos) da franquia, as mecânicas de jogo foram ganhando cada vez mais camadas e o enredo se tornando cada vez mais complexo e tendo maior destaque e tempo de tela ao longo da jogatina.

A série chegou a um ponto em que poderia se perguntar qual era o foco de seus jogos: se o gameplay era somente um instrumento para se contar uma história ou se ele era a grande atração.

Jogos como Sons of Liberty e Guns of the Patriots são inclusive acusados de possuírem mais elementos não interativos, que servem somente para storytelling, do que partes verdadeiramente jogáveis. Mais filmes interativos do que jogos.

Eu acho isso exagero, mas entendo o porquê de muita gente ter isso em mente. Ademais, para os fãs da franquia Metal Gear, isso faz parte da experiência e é apreciado.

Eis que em 2015 é lançado Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, sequência direta de Peace Walker no que se refere a storyline. Importante salientar que apesar de Peace Walker não ser um jogo da linhagem principal da franquia e de ter tido seu lançamento originalmente somente no PSP, seus acontecimentos são sim considerados canônicos, o que é comprovado pelo controverso Metal Gear Solid V: Ground Zeroes, prólogo de The Phantom Pain.

Apesar de eu não ter podido jogar The Phantom Pain a contento em seu lançamento, escolhendo aguardar para jogá-lo em sua completude somente após adquirir meu console de geração atual, o escolhi como meu jogo do ano de 2015. Aliás, fui bem criticado por isso na época, mas isso aqui é somente um blog, não tendo eu nenhuma obrigação com ética gamer jornalística. Deal with it!

Fiz essa escolha na época por ter ficado maravilhado com as possibilidades no que cernia a gameplay. Apesar disso, muitos amigos e conhecidos, alguns fãs da série, criticavam o game severamente por não ser tão focado na história, não possuindo as famosas e enormes cut-scenes usuais.

Como eu não havia jogado o game em sua completude, na tranquilidade do meu lar, não havia como concordar ou discordar desses argumentos, podendo apenas a continuar maravilhado com a experiência que o jogo havia me proporcionado a nível de gameplay.

Eis que no final do ano passado adquiri meu Playstation 4 e no mês de março, aproveitando uma boa promoção, consegui minha cópia de Metal Gear Solid V: The Definitive Experience. Essa versão possui Ground Zeroes, The Phantom Pain e Metal Gear Solid Online em um único disco, além de todos os DLCs do game principal inclusos.

Finalmente eu poderia jogar a última versão a ser produzida de minha franquia favorita. E sim, a última para o todo sempre, porquê para mim não importa quantos games com o nome Metal Gear a Konami lance daqui para frente. Sem Kojima, sem Metal Gear.

Desde a segunda metade do mês de abril, até o presente momento, basicamente não joguei mais nada além de Metal Gear Solid V (Ground Zeroes e The Phantom Pain). Ter ficado sem internet por grande parte desse período de tempo ajudou muito nisso.

Confesso que eu estava preparado para encontrar algum desapontamento para com The Phantom Pain, afinal de contas sou um dos jogadores que adora assistir horas e horas das cinematográficas cut-scenes que a franquia proporciona, entretanto o que encontrei aqui foi um jogo que conseguiu disputar com Metal Gear Solid 3: Snake Eater o lugar em meu coração de game favorito de toda a série.

Quanto mais eu jogo, mais me sinto compelido a continuar jogando. Seja pelo interessante sistema de parceiros ao longo das missões, sejam pelas novas possibilidades táticas de infiltração em bases inimigas, pelas novas possibilidades de imobilização e manipulação de inimigos, pelo farmar de soldados e itens de suporte à Mother base, enfim, poderia enumerar inúmeros motivos para o porquê não consigo parar de jogar. Nunca senti tanto prazer jogando um Metal Gear, tão pouco um jogo de mundo aberto, quanto o sinto jogando The Phantom Pain.

Apesar disso, é notório o quanto o game não é tão “redondinho” do que tange ao storytelling. Isso é decorrente do como o gameplay funciona aqui. Quanto maior a liberdade de se fazer o que se quiser, no momento em que quiser, mais se perde em uniformidade no storytelling e menos cinematográfica se torna a experiência.

Enquanto fã de Metal Gear sempre espero algo imponente com relação a storyline e storytelling quando vou jogar um game da série. O motivo de The Phantom Pain não ter me desagradado, muito pelo contrário, me deixou com uma bela de uma pulga da orelha e me fez refletir bastante para compreender um comportamento meu que eu mesmo não esperava. Esse processo foi o que me motivou a escrever esse texto.

Sempre que um novo Metal Gear era anunciado, a partir Metal Gear Solid, eu sempre me preocupava mais para com o como se daria o enredo do dito cujo jogo do que com novidades relativas ao gameplay. Sempre pensava em o quão complexo e filosófico o enredo o seria, nas possíveis respostas que ele traria para o cânone da franquia, bem como nas novas questões que surgiriam, e me focava muito nisso.

Ora, se somente peso narrativo fosse o mais importante, possivelmente meus games favoritos da franquia seriam Sons of Liberty e Guns of the Patriots, indiscutivelmente os mais focados em storytelling. Entretanto meu Metal Gear favorito até então era isoladamente Snake Eater, o mais “convencional” nesse sentido.

A partir daí fiz uma óbvia relação do motivo de eu gostar mais de Snake Eater com o porquê de, lá quando eu era “patotinho”, o primeiro Metal Gear ter me atraído ao ponto de me transformar enquanto gamer.

Tal raciocínio me fez então compreender o porquê The Phantom Pain me foi tão apaixonante. Por mais óbvia que seja a conclusão de meus pensamentos, no que cerne a Metal Gear isso simplesmente era obscurecido: Snake Eater e The Phantom Pain são os games da franquia que melhor entregam boas experiências em gameplay.

Quando experimentei o primeiro Metal Gear no MSX eu não tinha a menor ideia do que estava realmente acontecendo. Toda a experiência que eu pude ter com o jogo se resumia a seu gameplay e foi isso que me fez ficar alucinado.

Em Snake Eater pela primeira vez a série saía de ambientes urbanos, não possuía mais o famoso radar indicativo dos inimigos, trouxe o sistema de stamina, camuflagens e de curativos. Em sua versão especial Subsistence ganhou até mesmo um novo modelo de câmera, utilizado até hoje na série. O jogo se tornou mais técnico e cadenciado, bem como trouxe novas possibilidades de abordagem a inimigos e situações, mesmo ainda sendo um game de progressão linear.

The Phantom Pain traz além do já citado ao longo do texto, dois ambientes de mundo aberto, um sistema de missões principais e paralelas, além de submissões, gerenciamento de staff da Mother Base, entre outros. Com certeza é o game da franquia que mais trouxe inovações para a série, todas de qualidade e ainda assim sem fazê-lo perder o feeling Metal Gear.

É possível argumentar que muito do conteúdo referente a Mother Base de The Phantom Pain já havia sido explorado de alguma forma em Peace Walker, mas não com a mesma profundidade e imersão. Em The Phantom Pain isso foi elevado a outra potência em todos os aspectos.

Deixando claro que apesar do pouco enfoque em cut-scenes, há sim em The Phantom Pain uma história a ser contada e que é importante para o cânone da série. A questão aqui é a forma como muito desse conteúdo é passado ao jogador, que não é exatamente tão bem integrada ao gameplay, tão pouco cinematográfica.

Eu realmente entendo o porquê alguns de meus amigos e conhecidos não gostarem de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain. Entretanto, apesar de entender os argumentos, não concordo com suas validades, pelo menos nesse caso, para taxar o game de ruim.

Compreendo que o storytelling tenha sido deixado em segundo plano aqui, o que não é algo remotamente normal dentro da franquia, mas essa decisão foi claramente intencional. No final do dia o que mais importa é o gameplay e o quanto ele estimula o jogador a ficar voluntariamente preso no game. Nesse ponto, pessoalmente, The Phantom Pain excedeu em muito minhas expectativas.

Em tempo, quero deixar aqui duas citações.
Primeira: “Produced by Hideo Kojima”.
Segunda: Só para deixar claro, #fuckkonami .

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Ainda contribuidor free-lancer do site GameHall, um dos fundadores do não mais existente blog Canto Gamer e membro integrante da agência Joystick. Gamer por paixão, cinéfilo por vocação, leitor de mangás e HQs por criação e nerd pela somatória dos fatores. Acredita que os únicos possíveis cenários de apocalipse são Zumbis e Skynet e não sai para noitadas por medo do que Segata Sanshiro pode fazer se encontrá-lo.

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5 comentários em “O ápice de uma franquia: Por EduFarnezi
  1. ivoornelas disse:

    Tá aê uma série que passei em branco e um dos meus grandes pecados gamísticos em vida Eduardo. Acho que o problema principal foi por não ter consegui jogar o MG1 de PSX porque simplesmente fui uma das poucas pessoas no mundo que não teve ele. Isso meio que me deixou com o pensamento “Não vou jogar os outros enquanto não jogar o primeiro”

    Mas um dia prometo me redimir enquanto a isso e ainda mais lendo texto como seu e seu carinho pela série, isso me faz repensar o sentido de querer jogar determinados jogos.
    Apesar de tudo sou fã do Kojima e seu trabalho, tive a oportunidade de jogar outro game dele que é adora por mim até hoje ZOE: Zone Of The Enders. Tudo bem que ainda tenho uma mágoa por ele não ter continuado essa série de rôbos e focado só em MG, mas tenho que admitir a qualidade dos seus trabalhos em cima dessa série.

    Valeu Eduardo.
    Grande Abraço.
    Ivo

    Curtido por 1 pessoa

    • Um dos jogos que está em meu Top 5 do PS2 é o Zone of the Enders 2: The Second Runner.
      O jogo é animal!

      Quanto a não jogar uma série até jogar o primeiro, é super normal mesmo.
      Tenho uma lista enorme de séries e animes que estão na mesma situação.
      Kkkkkk!

      Valeu a visita maninho.

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  2. […] Sobre meu amor eterno para com a franquia Metal Gear, bem como minhas reflexões acerca das razões que levaram The Phantom Pain ocupar um lugar tão grande nesse meu coraçãozinho gamer, já há uma blogada minha por aqui sobre isso. Para lê-la, basta clicar AQUI. […]

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  3. Gamer Caduco disse:

    Eu também tô no time dos que passou em branco na franquia Metal Gear, principalmente pq eu detesto jogos stealth. Mas não sei pq eu nunca tentei jogar o primeirão, talvez eu ache um pouco mais interessante. Mesma coisa vale talvez pra esse último que saiu, o fato de poder resolver as coisas na força bruta me deixa um pouco mais afim. Sério, eu odeio mesmo stealth! kkkk
    De qualquer forma, respeito bastante a série e o Kojima, ele é um cara que tem umas ideias muito fodas, tipo de cara que faz falta na indústria! Poderíamos ter muito mais Kojimas fazendo jogos criativos por aí.

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu sou absolutamente apaixonado por stealth.
      Inclusive, Phantom Pain me conquistou pelas inúmeras opções de invasão de bases e aproximação / ludibriação de inimigos, tudo em stealth.
      Para quem não é fã do gênero, Metal Gear lhe é realmente uma franquia nada apelativa.
      Caso queira tentar, por questões de gameplay, lhe seria melhor começar pelo Phantom Pain e Ground Zeroes Mesmo, pois “aceitam” abordagens mais agressivas.

      Curtido por 1 pessoa

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